Pra buscar algum porquê de fazer teatro, por que ficar sem o fazer não tem por que, nem da, nem seria possível evitar. Pra rir e pra chorar, para chorar de rir e rir por não poder mais chorar. Tente, tente, tente e uma hora sai. E assim vai, e assim vai. Às vezes cai, mas mesmo assim vai. E se é teatro, esperamos que seja, que seja música. Poesia, prosa, e um tanto de qüiproquó. Mas que depois do balacobaco, fica um tanto brechtiano, e no final a Mãe Coragem tira os pães do forno e está pronto. É hora da ceia, do recheio, do centeio do pão. De dividir o gole do gole de uma gota de um pouco do que a gente viu. E descobriu e quer contar. Gole de vinho sem álcool, porque Dionísio nos fez descer do salto. Se vão rir ou chorar, a gente já viu, já sentiu e quer mais. E no final (do ponto do ônibus) a gente pega o caminho mais longo só pra conversar... E a gente fala, e como fala. Arte do ator, arte da palavra à toa. Mas numa boa, é fim, finito, Zé fini, o Zé feito Severinos como outros na vida, pelos quais a gente grita, e grita, e grita (e quando sobra prosa no encalço, canta). É hora da janta e não tem bóia. Mas uma hora vai ter. Vocês vão ver...Vai ter... Vai ter. Vai.



sexta-feira, 24 de abril de 2009

Laboratórios.


A puta, o bêbado, o malandro.
A madrugada, o amanhecer, a solidão.
A fome, o frio, o sono, a sede (a sede de álcool),
As angústia, as risadas, as paixões os amores,
As amizades, os ódios e os defeitos.
A desistência, os sonhos e cada um com sua história.

E assim caminhamos de encontro aos personagens, porque o personagem, assim como o ser - humano, descobre a si mesmo no seu dia-a-dia, nas suas reais dificuldades e molda-se na experiência prática (por que perder-se em seus pensamentos também é uma prática, em que muitas vezes o corpo atenta-se para suportar e responder ao seu imaginário, lembranças, sensações e sentimentos).
Por isso, voltamos a todos os “se’s” de Stanislavski, para viver as situações tanto do texto, como de tudo que é extra texto, que não é descrito pelo autor, mas que criam uma vida real para o personagem e o torna muito mais do que um mero nome com falas ao longo de um grande texto.
A bagagem de cada um desses seres: Ator, Barão, Nástia, Piépel, Anna e etc, esta sempre aumentando, e mais que isso, parece cada vez mais que ainda nem nasceu. Mas nasceram sim, viveram, porém, nosso processo de criação é gerar esses seres para dar à luz num segundo momento. Como se o filho pudesse ser colocado novamente no útero e assim, tendo ele dentro de nós, no âmago, sendo sangue do nosso sangue, e alimentado momentaneamente por cada uma de nossas experiências, até mesmo aquelas que não parecem ter ligação com este filho, para ser novamente cuidado e lapidado.
E ora, ele não está? Não está dentro de nós? Não faz parte de nossa carne e não é um fruto que vem pelo nosso corpo, pela nossa voz, e por nossos pensamentos para ter vida. É só pensarmos um pouco no que o trabalho do ator quer dizer hoje (uma entre tantas das vertentes), que é essa vivencia real, não que imite a vida, não que pareça com a realidade em sua extensão, e nem mesmo em seu espaço, mas seja lá aquilo que o ator faz em cena é REAL. Vem de dentro de si, mesmo que tenha distanciamento, mesmo que seja criado pela emoção, seja partidário, mesmo que seja naturalista, experimental, expressionista ou uma performance, se não há entrega, nada acontece.
Pois é esta entrega que caracteriza uma gestação. Não há abandono daquele que gera, mas há sim um pensamento e ações pertinentes para a formação dessa nova vida.
Os laboratórios? Bem, voltemos a eles.
São nos laboratórios que aprendemos a andar, a falar, a utilizar a técnica estudada e praticada na concepção de um outro ser que não sou eu mais que é feito a partir de mim, e que anda e fala de uma forma que não é a forma que eu ando e falo.
Mas também não vamos nos fazer de “mediúnicos” e acreditar que o que o personagem faz não sou eu que faço... Nada deve ser tão radical assim. Sou eu que constrói um outro eu.
O que importa é que cada vez menos a criação do personagem é feita através de elucubrações, de horas de pensamentos detalhados e quase sem fim, onde depois o ator compete-se a repetir o que foi pensado – como em alguns pontos característicos do GP, criado por Mickael Tchekhov. Claro que tudo é valido na construção de um personagem, e claro que muito de pensamento e reflexão deve ser implantado, contanto que isso não enrijeça a criação orgânica.
Nessas experimentações também descobrimos as relações, o Grande Eixo Condutor de nosso espetáculo, pois é o conflito desses seres entre si que geram não apenas clímax e desfecho, mas que dão margem para que as razões de cada um dessas criaturas de Gorki apareçam, e ainda vai além, é por trás dessas relações que ele denuncia a forma com que a sociedade se organiza(va), como as situações fazem o homem, e como nem todos sucumbem a essas mesmas situações – visto que adaptar-se não é o mesmo que entregar-se - , mostram como o sistema escraviza o trabalhador e canta seus ideais, pois sua denúncia é poética e extremamente rica e bem construída, cheia de harmonia e pontos de sustentação, ênfase, entonações e ritmo.
E tudo isso chega até nós, para ser vivenciado, rasgado, engolido, regurgitado e engolido novamente, para assim, chegar até o público, da maneira mais viva possível.



“Aprendam a amar a arte em vocês mesmos, e não vocês mesmos na arte.”
Konstantin Stanislavski